
Quando pensamos em liderança, costumamos imaginar figuras capazes de fazer discursos brilhantes e mobilizar suas equipes com grandes gestos.
O intraempreendedorismo deixou de ser uma tendência emergente para se tornar uma necessidade estratégica. No entanto, muitas organizações enfrentam o mesmo desafio: como passar do conceito para a implementação real?
Em um artigo anterior, exploramos por que o intraempreendedorismo é vital para o futuro empresarial. Agora é o momento de abordar o como: as estratégias concretas para cultivar esse espírito empreendedor interno que transformará a empresa de dentro para fora.
O espírito de “Uma Mensagem a García”: a base do intraempreendedorismo
Existe um paralelismo revelador entre o intraempreendedorismo e o clássico ensaio “Uma Mensagem a García”, do escritor norte-americano Elbert Hubbard.
Nessa história, Rowan recebe a missão de entregar uma mensagem ao General García em plena guerra, sem saber onde ele está nem como encontrá-lo. Ele não pergunta detalhes, não pede instruções passo a passo: simplesmente pega a mensagem e a entrega.
Esse é precisamente o espírito do intraempreendedor: a capacidade de ver uma oportunidade, tomar a iniciativa e executar sem supervisão constante ou sem que alguém resolva cada obstáculo.
O intraempreendedor é quem identifica uma necessidade na organização e assume a responsabilidade de “entregar a mensagem”, ou seja, levar a ideia até sua realização.
As habilidades do colaborador “Rowan”
O intraempreendedor compartilha três características fundamentais com o protagonista dessa história:
1. Visão e execução combinadas
Não é apenas um gerador de ideias: é um executor que fecha a lacuna entre concepção e materialização.
É o “sonhador que faz”, capaz de atuar como planejador, estrategista, organizador e criador ao mesmo tempo.
2. Tomada de riscos calculados
Assim como Rowan assumiu riscos físicos para cumprir sua missão, o intraempreendedor está disposto a assumir riscos calculados para alcançar seus objetivos.
Ele não se deixa paralisar pelo medo do fracasso — vê nele uma oportunidade de aprendizado.
3. Autonomia na tomada de decisões
Talvez a característica mais distintiva.
O sucesso das iniciativas intraempreendedoras depende diretamente da possibilidade de acessar recursos suficientes e ter poder de decisão para executar o plano.
Se Rowan atuava em um ambiente hostil, a empresa moderna deve se esforçar para criar um ambiente que não apenas permita, mas estimule ativamente o surgimento de seus próprios “Rowans”.
É aqui que muitas organizações falham: esperam comportamento intraempreendedor sem criar as condições para que ele floresça.
Os cinco pilares para construir uma cultura intraempreendedora
1. Cultura organizacional centrada na inovação
A inovação deve estar no coração dos valores corporativos.
Isso significa fomentar a curiosidade e a abertura ao novo — não apenas declarar isso na missão.
É necessário criar espaços onde os colaboradores se sintam à vontade para desafiar o status quo.
2. Apoio visível e tangível da alta direção
O compromisso da liderança deve ser real e se manifestar na alocação de recursos, na escuta ativa e no apoio concreto às propostas inovadoras.
Sem líderes conscientes da importância do intraempreendedorismo, as ideias dificilmente prosperam.
3. Tolerância ao erro como pilar de aprendizado
Nem todas as ideias serão bem-sucedidas.
Criar um ambiente psicologicamente seguro, onde os colaboradores se sintam confortáveis em assumir riscos e compartilhar ideias, é essencial.
Se o erro é punido, a proatividade desaparece.
O fracasso deve ser visto como aprendizado organizacional.
4. Recursos e autonomia suficientes
Embora “Uma Mensagem a García” seja inspirador porque Rowan agiu com poucos recursos, no mundo corporativo é fundamental que a empresa forneça o necessário para transformar ideias em realidade.
Isso inclui: financiamento, ferramentas, tempo dedicado e uma estrutura flexível.
5. Sistemas de reconhecimento efetivos
Celebrar o sucesso dos intraempreendedores é fundamental para reforçar a motivação e a sustentabilidade da cultura.
O reconhecimento pode ser financeiro, simbólico ou em oportunidades de crescimento e formação.
Ele não apenas premia o intraempreendedor — ele inspira outros.
O potencial do intraempreendedorismo na América Latina
O contexto latino-americano apresenta desafios e oportunidades particulares. Apesar de ainda incipiente, o intraempreendedorismo tem potencial enorme para se tornar um mecanismo transformador.
A diferença entre esperar colaboradores tipo Rowan e criar uma verdadeira cultura intraempreendedora está na intencionalidade.
Se “Uma Mensagem a García” trata do valor da execução autônoma e sem desculpas, o intraempreendedorismo representa o mecanismo pelo qual as empresas canalizam esse mesmo espírito para transformar colaboradores em um motor de inovação e crescimento.
A empresa inteligente não apenas espera ter Rowans — ela cria o clima e a estrutura para que esse comportamento seja possível e rentável. Isso implica:
-
estabelecer processos claros de apresentação e avaliação de ideias
-
destinar orçamentos específicos a projetos intraempreendedores
-
criar tempo dedicado à exploração de novas iniciativas
-
desenvolver métricas que valorizem tanto o sucesso quanto o aprendizado
-
formar líderes que saibam mentorar projetos inovadores
-
incentivar a interação entre áreas para cruzar conhecimentos
Implementar o intraempreendedorismo não é adicionar uma prática isolada — é transformar profundamente a forma como a empresa entende inovação, talento e futuro.
Representa uma forma de aproveitar o potencial criativo dos colaboradores, gerando maior engajamento, retenção e soluções reais.
Os projetos intraempreendedores mais bem-sucedidos podem até evoluir para unidades de negócio independentes, gerando receitas adicionais e diversificando a oferta.
Está pronto para implementar uma cultura intraempreendedora?
Convidamos você a conhecer nossos casos de sucesso e serviços de transformação cultural.
Por Hernán Tello, sócio da Olivia.