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FOBO: o medo de ficar obsoleto na era da inteligência artificial

Escrito por Ezequiel Kieczkier | 19 de out. de 2026 18:48:11

Há meses escuto colegas, clientes, profissionais e amigos amedrontados, ou quase paralisados, pela irrupção da IA em suas profissões.

A velocidade do processo é tão vertiginosa que desperta inseguranças profissionais que até pouco tempo atrás não tínhamos.

A inteligência artificial não está mudando apenas o que fazemos. Também está transformando a maneira como pensamos o nosso próprio valor. O novo temor não é perder o emprego amanhã, mas deixar de ser necessário depois de amanhã.

Durante muito tempo, a pergunta diante de uma nova tecnologia foi: "Ela vai me substituir?". Com a inteligência artificial, essa pergunta se tornou mais incômoda e mais profunda: "Que parte do que sei fazer continuará sendo valiosa?".

É daí que surge o FOBO: Fear of Becoming Obsolete, o medo de ficar obsoleto.

Não se trata apenas do medo de perder um emprego. É algo mais íntimo. É a sensação de que nossas capacidades, nossos conhecimentos e até nossa experiência podem deixar de importar. De que aquilo que levamos anos para aprender pode ser feito, em poucos segundos, por uma ferramenta que qualquer pessoa pode usar.

Um estudante pode pedir a uma IA que explique um conceito difícil com exemplos de futebol. Um profissional pode resumir um relatório de cem páginas em um minuto. Uma pessoa que nunca escreveu uma linha de código pode criar um aplicativo simples. Alguém sem nenhum conhecimento de música pode compor uma sinfonia. Alguém sem experiência em design pode gerar uma apresentação visualmente atraente ou um vídeo disruptivo.

A pergunta já não é se a inteligência artificial consegue fazer algumas de nossas tarefas. A pergunta é o que fazemos nós quando essas tarefas deixam de ser exclusivamente nossas.

O medo não é novo, mas a velocidade é

Cada revolução tecnológica produziu temores parecidos. A máquina a vapor ameaçou ofícios inteiros. O computador automatizou tarefas administrativas. A internet modificou o comércio, a mídia e a forma de nos comunicarmos. Para que a figura da secretária executiva praticamente desaparecesse do mercado, passaram-se uma ou duas décadas. O mesmo aconteceu com os trabalhadores de pedágio: tiveram uma década de aviso.

Mas a inteligência artificial introduz uma diferença decisiva: ela não automatiza apenas o trabalho manual ou repetitivo. Também interfere em atividades que associávamos ao pensamento: escrever, analisar, resumir, traduzir, desenhar, programar, pesquisar.

Por isso o impacto é tão pessoal. Durante décadas construímos nossa identidade em torno do que sabemos fazer. "Sou contador", "sou jornalista", "sou advogado", "sou designer", "sou professor". Agora, muitas dessas profissões incorporam ferramentas capazes de realizar uma parte importante desse trabalho em menos tempo e, em alguns casos, a menor custo.

O problema aparece quando confundimos uma tarefa com a nossa identidade.

Um contador não é apenas alguém que insere dados em uma planilha. Um jornalista não é apenas alguém que redige textos. Um professor não é apenas alguém que transmite informação. Um médico não é apenas alguém que reconhece sintomas.

A tecnologia pode fazer algumas dessas tarefas. Mas ainda precisamos de pessoas capazes de compreender contextos, fazer perguntas relevantes, assumir responsabilidades, interpretar nuances e tomar decisões quando não existe uma resposta evidente.

Do "saber fazer" ao "saber decidir"

Durante muito tempo, a vantagem profissional esteve em acumular conhecimento. Quem sabia mais tinha mais valor. Em um mundo onde o acesso à informação é instantâneo e as máquinas conseguem processá-la em alta velocidade, essa vantagem começa a se deslocar. Não basta saber responder. É preciso saber o que perguntar. Não basta produzir uma apresentação. É preciso entender que problema ela deve resolver. Não basta gerar dez ideias. É preciso reconhecer qual delas pode funcionar e por quê.

A inteligência artificial pode escrever um e-mail, mas nem sempre sabe se convém enviá-lo. Pode propor uma estratégia, mas não conhece necessariamente a história de uma organização, suas tensões internas ou o custo político de uma decisão. Pode entregar uma resposta convincente, mesmo quando está errada.

O valor humano começa a se concentrar em outro lugar: o critério.

Esse critério não é uma habilidade abstrata nem reservada a alguns iluminados. Constrói-se com experiência, curiosidade, pensamento crítico e capacidade de aprender. Também com algo que as máquinas ainda não conseguem substituir por completo: a responsabilidade pelas consequências.

Um exemplo cotidiano

Pensemos em uma pessoa que trabalha em atendimento ao cliente. A inteligência artificial pode sugerir respostas, organizar reclamações e detectar padrões em milhares de conversas. Isso não significa necessariamente que essa pessoa deixe de ser necessária. Mas o trabalho dela pode mudar.

Talvez ela já não precise responder manualmente a cada consulta simples. Em vez disso, terá que resolver os casos mais complexos, perceber quando um cliente está realmente frustrado, decidir quando sair do roteiro e encontrar uma solução que preserve o relacionamento.

A ferramenta pode tornar o trabalho mais eficiente. Também pode torná-lo mais exigente.

O mesmo acontece em uma redação. Uma IA pode resumir documentos, propor títulos ou redigir uma primeira versão. Mas uma coluna de opinião não se define apenas pela gramática. Define-se por um olhar, uma hipótese, uma sensibilidade e um posicionamento diante do mundo. A máquina pode ajudar a escrever. A pergunta é se nós ainda temos algo a dizer.

A resposta ao FOBO não é correr atrás de cada novidade

Diante do medo de ficar obsoleto, a reação mais comum é tentar aprender todas as ferramentas. Surgem cursos, tutoriais e listas intermináveis de aplicativos. Como se a solução fosse conhecer cada novidade antes dos outros.

Mas essa corrida não tem linha de chegada. A tecnologia vai continuar mudando. O que hoje parece imprescindível amanhã pode ser substituído por uma função integrada a outra ferramenta. Por isso, mais do que aprender aplicativos específicos, precisamos desenvolver capacidades que sobrevivam às mudanças de plataforma: formular melhores perguntas, trabalhar com os outros, comunicar com clareza, entender problemas complexos e aprender de maneira contínua.

A alfabetização em inteligência artificial será importante. Mas não consistirá apenas em saber escrever uma instrução para obter uma resposta. Também implicará saber verificá-la, discuti-la e reconhecer seus limites.

Porque uma resposta rápida não é necessariamente uma boa resposta. E uma resposta segura não é necessariamente verdadeira.

A obsolescência mais perigosa

Existe, além disso, uma forma de obsolescência que não vem da tecnologia, mas da nossa atitude diante dela. É possível ficar obsoleto não porque uma máquina faz melhor uma tarefa, mas porque deixamos de nos fazer perguntas. Porque aceitamos a primeira resposta. Porque deixamos de conversar com colegas, de observar os clientes, de ler, de experimentar. Porque delegamos tanto o pensamento que acabamos perdendo a capacidade de decidir. O verdadeiro risco não é que a inteligência artificial pense como uma pessoa. É que as pessoas comecem a pensar como uma ferramenta: de maneira automática, previsível e sem critério próprio.

O FOBO pode ser um sinal de alerta, mas também uma oportunidade. Nos obriga a revisar que valor oferecemos e que tipo de profissionais queremos ser. Não para competir com as máquinas em velocidade, memória ou volume de produção. Essa competição está perdida antes de começar.

Nossa tarefa é outra: usar a tecnologia para ampliar nossas capacidades sem entregar aquilo que nos torna responsáveis por nossas decisões.

Na era da inteligência artificial, não será obsoleto quem não souber usar cada ferramenta. Será obsoleto quem acreditar que já não tem nada novo para aprender, perguntar ou contribuir.

E talvez aí esteja o paradoxo: para não ficarmos obsoletos, teremos que voltar a fazer algo profundamente humano. Aprender.

Por Ezequiel Kieczkier, sócio fundador e CEO da Olivia.