Há conversas que começam entre bate-papos descontraídos e terminam acertando em cheio.
O ego é ruim ou é bom? A resposta, como costuma acontecer com as coisas que importam, não é nem uma coisa nem outra.
O ego, em termos simples, é a imagem que temos de nós mesmos: a autopercepção que forma nossa identidade e nos faz ser quem somos. Tem uma parte saudável e uma parte que pode causar muito dano, especialmente dentro de uma empresa na hora de potencializar as equipes de alto desempenho.
Imaginemos uma cena típica. Uma área de oito pessoas trabalha durante seis meses no desenvolvimento de um novo produto. O produto funciona, o mercado responde bem, o caso de sucesso começa a crescer dentro da organização. E então acontece algo: uma única pessoa se apresenta à alta liderança e diz "olha o que eu desenvolvi, olha o que eu fiz, essa foi uma ideia minha". A equipe fica sabendo. E o que havia sido uma conquista coletiva se transforma em uma fratura que não se fecha mais.
Esse tipo de situação não é raro nas empresas. É a manifestação mais concreta do que acontece quando o ego individual se impõe sobre o propósito coletivo. A pergunta não é se alguém "fez o gol": a pergunta é se a equipe cumpriu o objetivo. No futebol isso se vê em campo, milhões de pessoas testemunham quem empurrou a bola e quem fez a jogada anterior. Dentro de uma empresa, a transparência é muito menor, e isso abre a porta para quem quer se apropriar do que não lhe pertence exclusivamente.
O ego desmedido nem sempre se apresenta de forma tão evidente. Há sinais mais sutis que, quando se aprende a identificá-los, aparecem em quase todas as equipes:
Mas o ego não é o inimigo. Um ego equilibrado é, na verdade, uma condição necessária para que as equipes funcionem bem. Uma equipe com ego saudável tem confiança coletiva: sabe que pode, se percebe com capacidade de conquistar grandes coisas, e isso gera um motor poderoso. A diferença está em que essa confiança não está a serviço dos egos individuais, mas do propósito compartilhado.
O ego saudável também implica autoconhecimento. Saber quem você é, quais são suas limitações, para que você está. O centroavante de várzea que sabe que não é o melhor atacante, mas mesmo assim quer chutar para frente para levar o mérito do gol, é o oposto de quem entende seu papel, o aceita e o executa bem. Quanta honestidade, quanta justiça e quanto equilíbrio há nesse gesto.
As limitações de uma equipe costumam partir das limitações de seu líder. É difícil que os membros de uma equipe construam dinâmicas que sua liderança não está habilitada para sustentar. Quando um líder tem humildade genuína para reconhecer quem é, o que sabe e o que não sabe, a equipe tende a imitá-lo. E quando o líder opera a partir do ego desmedido, a equipe também aprende isso.
Um dos espaços mais subestimados nas organizações é o tempo dedicado a falar sobre a dinâmica da equipe e a trabalhar o autoconhecimento coletivo. Os processos de feedback, quando levados a sério e não como uma formalidade anual, ajudam a ajustar a imagem que cada pessoa tem de si mesma com a imagem que o entorno percebe. Essa lacuna, quando é muito grande, é um sinal de alerta. E o feedback só funciona quando quem o recebe tem a disposição e a maturidade para ouvi-lo.
O ego na liderança é como o volume de um microfone. Se estiver muito baixo, ninguém ouve a visão. Mas se estiver muito alto, ensurdece.
1- Ouvir proativamente: Não esperar que alguém queira dizer algo. Ir ativamente em busca da escuta. A informação que você precisa raramente chega sozinha quando você ocupa um lugar de poder.
2- Adaptar-se e evoluir: A capacidade de ajustar a imagem que se tem de si mesmo a partir do que se ouve é o que permite crescer. Um ego rígido não aprende.
3- Cultivar o ego coletivo: O grande desafio não é eliminar o ego individual, mas transformá-lo em confiança compartilhada. Equipes que se sabem capazes, que têm uma imagem coletiva positiva, são equipes que rendem.
A pergunta que fica ao final da conversa não é se o ego existe ou não nas equipes, mas em que nível está o volume. Ajustá-lo é trabalho de todos, mas especialmente de quem lidera.