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Liderar em janeiro: o tamanho não importa

Escrito por Gabriel Weinstein | 13/01/2026 13:24:50

Janeiro é o mês em que todos falam de mudança. Novas estratégias, novos organogramas, novos discursos. Mas há algo que raramente é revisado com honestidade: a forma como entendemos o poder.

Porque, embora nos custe admitir, muitas organizações continuam presas a uma lógica tão antiga quanto ineficiente: acreditar que liderar é mandar em muita gente.

Durante tempo demais, a liderança foi medida em cabeças. Quantas pessoas respondem a você? continua sendo, em muitas organizações, a pergunta que define status, influência e sucesso profissional. Construímos empresas como pirâmides obesas, onde crescer significava adicionar camadas, lideranças intermediárias e estruturas pensadas mais para justificar poder do que para criar valor. Esse modelo não está obsoleto: está sendo ativamente desmantelado.

A tecnologia não veio para otimizar esse sistema; ao contrário, veio para torná-lo desnecessário. A automação, a inteligência artificial e a digitalização romperam a relação histórica entre tamanho e liderança. Hoje, ter uma equipe enorme já não é uma vantagem competitiva; em muitos casos, é um sinal de ineficiência. O poder já não está em controlar, mas em influenciar. E, claro, isso incomoda.

A inteligência artificial expõe o valor real de cada papel, identificando quem pensa, interpreta e conecta pontos.

A IA acelera esse desconforto. Ao assumir tarefas repetitivas, operacionais e até analíticas, ela revela uma verdade incômoda: nem todo o trabalho humano era realmente indispensável. Algumas grandes corporações já entenderam isso — não porque “sobrem” pessoas, mas porque sobram papéis desenhados para um mundo que já não existe. O crescimento já não precisa de mais gente; precisa de mais critério.

Aqui está a verdadeira virada. A IA não substitui funcionários de forma indiscriminada; ela expõe o valor real de cada papel ao identificar quem pensa, interpreta e conecta pontos. Ao mesmo tempo, deixa em evidência aqueles que apenas gerenciavam uma complexidade artificial. Nesse contexto, liderar grandes equipes já não é um mérito; muitas vezes, é um sintoma de não ter sabido simplificar.

Estamos entrando em uma mutação profunda da liderança que muitos ainda resistem a aceitar. Durante o século XX, liderar era controlar, organizar, supervisionar, corrigir. No século XXI, liderar é orquestrar: combinar talento humano, sistemas inteligentes e propósito. O líder relevante já não é o que manda em muitos, mas o que consegue fazer com que poucos gerem um impacto desproporcional. Não o que acumula poder, mas o que o distribui. Não o que vigia, mas o que ativa.

Menos camadas não significam menos liderança; significam menos lugares para se esconder.

E aqui surge uma paradoxa incômoda para as velhas hierarquias: quanto mais plana é uma organização, mais liderança ela exige. Menos camadas não significam menos liderança; significam menos espaços para se esconder dentro da organização. Liderar sem hierarquias rígidas, sem controle permanente e sem obediência automática requer uma sofisticação emocional e cognitiva muito maior do que a do comando tradicional. Mandar era fácil. Influenciar, não.

Por isso, a autoridade do futuro não se baseará no cargo, mas na capacidade de gerar impacto real. Já não importará quantas pessoas respondem a você, mas quantas decisões relevantes você provoca, quantas ideias destrava ou quanto valor coletivo libera. A liderança deixa de ser uma questão de volume e passa a ser uma questão de sentido.

Talvez a liderança do futuro se pareça menos com dirigir uma fábrica e mais com dirigir uma orquestra. Não importa quantos músicos você tem, mas se é capaz de fazê-los soar melhor juntos.

Janeiro é um bom momento para dizer isso sem rodeios: em um mundo onde a tecnologia amplifica as pessoas, a liderança não se mede pelo tamanho (da equipe), mas pelo impacto que você é capaz de gerar com ela.

Por Gabriel Weinstein, managing partner da Olivia Espanha.