O onboarding tradicional funciona em organizações lineares. Mas, em estruturas matriciais pós-M&A, integrar novas equipes sem que percam sua identidade é um ato de equilíbrio que poucas organizações conseguem.
Um diretor de operações de uma empresa recém-adquirida que acessou seu e-mail no primeiro dia de integração enfrentou um problema inesperado: havia sido adicionado a 47 novos grupos do Teams, 12 dos quais ele não sabia para que existiam. Tinha recebido 230 e-mails sobre processos dos quais desconhecia quem era o responsável, como se conectavam, por que importavam.
O comentário dele resume o caos invisível do onboarding matricial: "Tenho mais canais do que senso de propósito".
O onboarding tradicional, aquele que a maioria das organizações faz, é desenhado para contextos simples. Alguém novo entra, tem um líder, reporta a uma estrutura clara, é ensinado como essa linha funciona e pronto, aí termina a história.
Mas em uma organização matricial pós-M&A, não é assim. A nova equipe reporta a alguém da empresa adquirente, mas também colabora com equipes de várias áreas, funções que antes não existiam, novas geografias. Não há uma linha clara. Há uma rede complexa de relacionamentos.
E se o onboarding não for desenhado para navegar essa complexidade, o que acontece é que a nova equipe começa a se sentir dispersa, sem senso de pertencimento, perdida em um labirinto de processos que não compreende.
As organizações normalmente fazem o seguinte no onboarding:
Mas em uma estrutura matricial pós-M&A, isso é insuficiente. Porque a pergunta que a nova equipe se faz não é apenas "como funciona a minha equipe?", mas "onde eu me encaixo nesse ecossistema complexo?".
O problema é multidimensional:
Primeiro aparece a falta de clareza entre a estrutura real e a oficial. O organograma diz que você reporta a uma pessoa, mas a realidade é que você toma decisões com outra, que se alinha constantemente com uma terceira, que precisa de aprovação de mais uma. Ninguém ensina isso. Você descobre em reuniões frustrantes em que lhe dizem "precisamos falar com fulano primeiro", depois de você achar que já havia tomado uma decisão.
Depois aparece a sobrecarga de informação sem hierarquia. A nova equipe é adicionada a todos os sistemas, canais e ferramentas. Mas ninguém ensina o que é crítico, o que é ruído, onde focar a atenção. O resultado: paralisia por análise.
Em terceiro lugar, e na minha opinião um dos elementos mais críticos, está a perda de identidade cultural na integração. Quando uma equipe é absorvida, normalmente se espera que adote a forma de trabalhar da empresa adquirente. Isso é apresentado como "integração". Mas o que realmente acontece é homogeneização. A nova equipe perde os rituais, as formas de colaboração e os valores que a caracterizavam.
Isso gera um luto não processado. "É assim que fazemos as coisas agora" soa neutro, mas, para a equipe que há anos trabalha de outro jeito, é um ato de anulação imediata do que realmente importa para ela.
As organizações que conseguem uma integração coerente sem homogeneização fazem algo radicalmente diferente. Desenham o onboarding como um processo de coconstrução, não de imposição.
Como fazem isso?
Isso não é um e-mail explicando o organograma. É uma série de conversas em que se trabalha para definir em conjunto:
Aqui é onde a maioria das organizações falha. Esperam que a nova equipe adote a cultura existente. Mas uma organização pós-M&A não tem uma cultura, tem duas culturas em tensão.
Um onboarding matricial eficaz cria espaço para a conversa sobre culturas. Não para impor, mas para entender: "Assim fazemos as coisas aqui. Assim vocês faziam as coisas lá. Há algo que queremos preservar? Há algo que queremos evoluir juntos?"
Não apenas conhecer o líder e a equipe direta, mas construir relacionamentos significativos com aqueles com quem precisará colaborar.
Isso não é networking tradicional ("vem tomar um café"). É facilitado e intencional: "Seu papel vai exigir que você trabalhe com esta pessoa neste tema. Aqui está como ela trabalha, o que a motiva, qual é a melhor forma de se aproximar. Vamos fazer uma sessão juntos para alinhar expectativas."
Depois das fases anteriores, a nova equipe define seus objetivos. Mas faz isso com clareza sobre como se conecta com o resto da organização. Não é "o que a minha equipe alcança", e sim "o que a minha equipe alcança e como isso soma ao sistema".
Além das fases, há práticas operacionais que fazem o onboarding matricial funcionar:
O verdadeiro indicador de um onboarding bem-sucedido em organizações matriciais não é "a equipe conhece os processos?", e sim "a equipe sente que pertence?".
E isso só se consegue se o desenho do onboarding reconhecer que integração não é "aqui fazemos assim". É síntese, é trazer o que há de valioso no que existia antes e combiná-lo com o que a nova estrutura oferece.
As organizações que conseguirem isso terão equipes que não apenas se adaptam, mas inovam. Que não apenas colaboram, mas criam juntas. Que não apenas aceitam a mudança, mas a conduzem.
Por Mariana Socorrós, sócia da Olivia Espanha.