Por Ezequiel Kieczkier, sócio fundador e CEO da Olivia.

Quando o vazio se transforma em projeto: a última lição de Lionel Messi

A despedida de Lionel Messi vai além do futebol e deixa uma lição sobre liderança, renovação e como transformar um fim em um novo começo.

Escrito por
Ezequiel Kieczkier
Ezequiel Kieczkier

CEO e sócio fundador. Coautor de Crisis & Co.

BLOG-marcelo-Transformación-digital-con-IA-

Toda grande época deixa uma pergunta incômoda quando termina: o que fazemos quando desaparece aquilo que organizava nosso horizonte?

A possível despedida de Lionel Messi da Seleção argentina não é apenas a aposentadoria do melhor jogador de futebol da nossa história. É também o fim de um marco de referência que, por quase duas décadas, estruturou expectativas, lideranças e certezas.

Friedrich Nietzsche escreveu que "Deus está morto". Não era uma provocação religiosa, mas a descrição de um fenômeno muito mais profundo: a queda das verdades absolutas que davam sentido a uma sociedade. Quando esses pilares desaparecem, surge o niilismo — esse instante em que as respostas de sempre deixam de funcionar. Mas Nietzsche não concebia esse vazio como uma tragédia, e sim como uma oportunidade para criar novos valores. Algo desse processo vivemos hoje com o que parece ser a saída de Messi da seleção, ou pelo menos dos Mundiais. Durante anos, a Seleção teve um centro de gravidade evidente. Sua presença ordenava o jogo, a conversa pública e até as expectativas de um país inteiro. A ideia de sua aposentadoria nos coloca diante de uma pergunta inevitável: como construir quando já não está quem parecia sustentar tudo?

A resposta vai além do futebol

É uma pergunta que também atravessa organizações, empresas e qualquer equipe que alguma vez dependeu de um líder extraordinário.

O primeiro ensinamento é que organizações maduras não sobrevivem se agarrando à nostalgia. Os grandes ciclos terminam, os mercados mudam, as tecnologias transformam indústrias e as pessoas seguem novos caminhos. A liderança consiste, precisamente, em reconstruir sentido quando as certezas desaparecem. Quem apenas administra o passado acaba preso nele; quem cria novos propósitos transforma a mudança em vantagem.

O segundo ensinamento tem a ver com disciplina. Durante anos se construiu em torno de Messi uma narrativa quase mítica. No entanto, por trás de cada genialidade houve milhares de horas de treino, preparação e obsessão com os detalhes. Essa é provavelmente a maior diferença entre o talento excepcional e a liderança sustentável: a excelência não é um ato heroico, mas uma prática cotidiana. Nas empresas acontece exatamente o mesmo. As culturas de alto desempenho não se sustentam pela inspiração permanente, mas por hábitos consistentes.

O terceiro ensinamento é talvez o mais relevante para qualquer organização. Durante muito tempo acreditou-se que a Seleção dependia exclusivamente de sua estrela. Os títulos chegaram quando o time deixou de girar apenas em torno de um nome e construiu uma cultura capaz de potencializar a todos. A estrutura deixou de estar a serviço do indivíduo e passou a funcionar como um sistema. Essa diferença explica por que alguns times brilham apenas enquanto um líder permanece, e outros continuam crescendo mesmo quando esse líder já não está.

Finalmente surge a questão do legado

Costumamos confundir legado com permanência. Acreditamos que um grande líder deixa uma marca quando ninguém pode substituí-lo. Provavelmente acontece exatamente o contrário. A verdadeira liderança se mede pela capacidade de construir organizações que evoluam sem depender de quem as fundou. Um legado autêntico não imobiliza — habilita. Não gera imitadores, mas novos protagonistas. Por isso, aceitar o fim de uma etapa não implica resignar-se à perda. Implica assumir a responsabilidade de criar o que vem a seguir. Em termos organizacionais, significa fomentar autonomia, aceitar o erro como parte do aprendizado, estimular o pensamento crítico e construir culturas onde o propósito seja mais forte do que qualquer individualidade.

Messi deixa a Seleção com uma coleção inigualável de títulos, recordes e imagens que já pertencem à memória coletiva. Mas talvez seu maior ensinamento não esteja nas taças erguidas, e sim no desafio que deixa em aberto. Nos obriga a verificar se aprendemos a construir instituições capazes de transcender as pessoas. Segundo se soube em uma ocasião, um tal Diego Armando Maradona trabalhou com Messi para que a Pulga pudesse melhorar suas cobranças de falta. Aquele Diego que o imaginário coletivo pensava insuperável tendeu uma ponte ao futuro, quando ninguém imaginava um Messi superlativo como o que vimos na última década. Hoje Diego não está. Messi está saindo… Nietzsche sustentava que do vazio nascem as possibilidades de uma nova criação. Talvez essa seja a última lição que tenha Lionel Messi como protagonista.

Os grandes líderes não fecham histórias; criam as condições para que outros escrevam as seguintes. E esse, em definitivo, é o verdadeiro triunfo de qualquer legado.

 

Por Ezequiel Kieczkier, sócio fundador e CEO da Olivia.

 
 

LIDERANÇA ORGANIZACIONAL
Outras reflexões de Ezequiel Kieczkier

O verdadeiro desafio por trás da lacuna entre produtividade e emprego na era da IA

Estamos atravessando uma mudança de era. Assim como aconteceu com a Revolução Industrial ou com a expansão da Internet, a inteligência artificial não ...
Leia mais

Gestão do ego na liderança: como ele afeta o alto desempenho das equipes

Há conversas que começam entre bate-papos descontraídos e terminam acertando em cheio.
Leia mais

Três prêmios Eikon: quando o propósito se materializa no território

Quando pensamos em liderança, costumamos imaginar figuras capazes de fazer discursos brilhantes e mobilizar suas equipes com grandes gestos.
Leia mais