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A geometria tóxica: por que conectar tudo com tudo pode canibalizar a sua empresa

Escrito por Oscar Velasco | 20/05/2026 16:41:50

Recentemente ouvi uma teoria matemática curiosa.

Ela dizia que, se você joga Jogo da Velha não em um tabuleiro quadrado tradicional, mas em um formato de rosquinha (onde as bordas se conectam), o jogo se torna impossível de empatar e alguém sempre vence.

Imediatamente pensei em People Analytics e nos modelos de cultura que desenhamos. Adoramos círculos: o ciclo contínuo do colaborador, a roda de feedback, o desenvolvimento infinito. Fez todo sentido imaginar que, ao prender a cultura em uma “rosquinha” sem fim, eliminaríamos a competição e obrigaríamos todos a cooperar.

Mas, como gosto de validar minhas intuições, fui revisar a matemática real por trás disso… e tive uma enorme surpresa, que muda completamente a forma como deveríamos gerir talentos.

Acontece que, no Jogo da Velha tradicional (o quadrado), o empate é a regra quando ambos jogam bem. O tabuleiro tem limites, cantos e bordas que servem para bloquear o outro jogador. Mas quando você dobra esse tabuleiro e o transforma em uma rosquinha, o número de formas de vencer dispara. Como não existem bordas, é matematicamente impossível empatar. Alguém sempre ganha — e ganha rápido.

E é aqui que mora o verdadeiro perigo para quem trabalha com gestão de pessoas.

O perigo das culturas “rosquinha” em Recursos Humanos

Sem perceber, em Recursos Humanos temos fugido do “modelo quadrado” (estruturas tradicionais, hierárquicas e com limites claros) porque ele parece lento e burocrático. Nesse movimento, começamos a desenhar “rosquinhas” em nossas apresentações: culturas em que tudo é hiperconectado, o feedback é 360° e imediato, e não existem hierarquias fixas. Acreditamos que a circularidade traria harmonia.

O que a matemática nos mostra é que a rosquinha não traz paz; ela apenas remove os freios. Em uma cultura “rosquinha”, sem limites ou bordas que interrompam o fluxo, não se cria equilíbrio. Pelo contrário: a canibalização se acelera. As subculturas mais barulhentas ou os perfis mais agressivos dominam o jogo muito mais rápido, porque o sistema não possui cantos onde as pessoas possam se proteger do ruído ou fazer uma pausa. O burnout não é um acidente nesses modelos circulares; é o resultado lógico de um jogo sem fim claro.

Por que a estrutura “quadrada” não é burocracia: é um mecanismo de defesa

Às vezes, um pouco de estrutura “quadrada” — limites claros, processos com começo e fim, e fronteiras saudáveis — não é burocracia pesada; é um mecanismo de defesa para impedir que o sistema devore a si mesmo. Não se trata de voltar ao século passado, mas de entender que, se vamos criar dinâmicas circulares de alta velocidade, as regras do jogo precisam mudar pela raiz. Não podemos colocar pessoas para competir por recursos limitados dentro de uma rosquinha infinita e esperar que colaborem por mágica.

Da próxima vez que desenharmos um modelo cultural baseado em círculos perfeitos, vale a pena perguntar se estamos construindo um ecossistema de colaboração infinita ou apenas dobrando o tabuleiro para tornar a competição mais rápida e voraz.

Que forma tem a sua cultura hoje? Um quadrado previsível ou uma rosquinha hiperconectada?

Por Yoel Kluk, sócio da Olivia México.