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Adaptar-se ou ficar para trás: o verdadeiro desafio da liderança em tempos de turbulência

Escrito por Marcelo Blechman | 16/04/2026 13:26:15

A guerra no Oriente Médio, a volatilidade das commodities, a desaceleração do crescimento em mercados emergentes e a aceleração tecnológica sem precedentes configuram um cenário que não tem paralelo recente.

Para o mundo corporativo, isso não é apenas ruído de fundo: é o novo terreno de operação.

No entanto, o mais revelador não é a magnitude das disrupções, mas a resposta que geram dentro das organizações. A pandemia foi um teste de estresse brutal que evidenciou quantas empresas haviam construído suas culturas sobre a ilusão da estabilidade. Incorporamos trabalho híbrido, flexibilidade e discursos de bem-estar. Mas ao primeiro sinal de normalização, muitas voltaram a operar pela lógica do controle e da urgência que sempre conheceram.

As organizações que hoje resistem melhor à turbulência não são necessariamente as maiores nem as mais tecnológicas. São aquelas que conseguiram fazer da adaptabilidade um traço cultural genuíno: equipes empoderadas, confiança como ativo estrutural e lideranças capazes de agir sem ter todas as respostas.

O problema de fundo é que a maioria das estruturas empresariais foi projetada para a estabilidade, não para a mudança. Processos rígidos, hierarquias verticais e culturas baseadas no expertise individual dificultam a resposta ágil. Transformar essa arquitetura organizacional é o trabalho mais difícil — e mais urgente — que a liderança executiva tem hoje.

Adaptar-se não significa reagir mais rápido. Significa tornar-se uma organização que aprende, que tolera a incerteza sem se paralisar e que reconhece em cada crise uma oportunidade de reinvenção. A diferença entre as empresas que sobrevivem e as que lideram em contextos complexos está aí: se a cultura é declarada ou é real.

O executivo que faz melhores perguntas: como a IA redefine o papel do C-Level

Durante décadas, o valor diferencial do executivo sênior esteve associado ao conhecimento acumulado: a experiência setorial, o domínio técnico, o acesso a informação privilegiada. Hoje, a Inteligência Artificial está deslocando progressivamente esse eixo. E isso muda tudo.

A IA não apenas automatiza tarefas; redesenha a natureza do trabalho executivo. Quando os sistemas conseguem processar milhões de dados em segundos, gerar cenários estratégicos, antecipar tendências de mercado e sintetizar informações complexas, a liderança baseada em expertise começa a ceder espaço para uma liderança baseada em critério.

O C-Level do presente tem diante de si um desafio que vai além de adotar ferramentas digitais: deve se reposicionar como arquiteto do sentido em organizações cada vez mais mediadas por algoritmos. Isso implica ao menos três transformações concretas em seu papel:

Primeiro, passar de gestor de respostas a facilitador de perguntas. A IA entrega outputs; o executivo precisa saber o que pedir, como interpretar e o que fazer com isso. O valor não está mais no dado, mas no critério para transformá-lo em decisão.

Segundo, liderar a adoção cultural da IA, não apenas sua implementação tecnológica. As organizações que falharam em seus processos de transformação digital o fizeram por tratar a tecnologia como um projeto de TI, e não como uma mudança cultural. O CEO e sua equipe executiva devem ser os primeiros a modelar o uso inteligente dessas ferramentas.

Terceiro, exercer uma liderança mais humana, precisamente porque a tecnologia escala. Paradoxalmente, quanto mais automatizável se torna o trabalho cognitivo rotineiro, mais relevante se torna a capacidade de gerir emoções, incertezas e propósito. A empatia, o julgamento ético e a capacidade de dar sentido ao que se faz são hoje as competências menos automatizáveis — e por isso, as mais valiosas.

O C-Level que compreende esse novo cenário não vê a IA como uma ameaça nem como uma solução mágica. A integra como um habilitador estratégico e assume a responsabilidade de acompanhar suas equipes nesse processo.

Do discurso à arquitetura: como impulsionar a transformação cultural de verdade

O maior erro que as organizações cometem ao enfrentar a transformação é tratá-la como um projeto. Tem início, tem marcos, tem data de encerramento. Mas a cultura não funciona assim. A cultura é um sistema vivo que se modifica lentamente, por meio de comportamentos cotidianos e das mensagens implícitas que a liderança emite a cada decisão.

Então, como apoiar de forma eficaz essa adaptação cultural? A partir do trabalho com organizações em contextos de alta complexidade, é possível identificar cinco alavancas concretas:

  • Tornar visível a cultura real, não a declarada. Muitas organizações têm valores nas paredes que não se refletem em como as decisões são tomadas, como as promoções acontecem ou como os erros são geridos. O primeiro passo é o diagnóstico: o que nossa cultura realmente diz sobre como respondemos à mudança?
  • Treinar a adaptabilidade como habilidade, não como atitude. A abertura à mudança pode ser desenvolvida. Isso implica desenhar experiências de aprendizado que coloquem as pessoas diante da incerteza de forma controlada, que normalizem o não saber e que construam confiança na capacidade de resposta coletiva.
  • Redesenhar a liderança em direção a um modelo mais flexível e consciente. A liderança é o principal veículo da cultura. Se os líderes não modelam a adaptabilidade, nenhum discurso ou programa conseguirá instalá-la. Isso exige trabalho em competências de liderança humanizada: gestão da ambiguidade, comunicação em contextos de incerteza e capacidade de sustentar equipes emocionalmente.
  • Medir comportamentos, não apenas resultados. A transformação cultural se consolida quando se mede o que importa: como as pessoas colaboram, como processam o erro, como se relacionam sob pressão. Sem essas métricas, o processo fica às cegas.
  • Instalar o aprendizado contínuo como prática, não como evento. As organizações adaptativas aprendem constantemente, não apenas em períodos de crise. Isso requer desenhar estruturas que o permitam: espaços de reflexão, comunidades de prática, processos de retrospectiva e uma cultura que valorize a curiosidade acima da certeza.

As organizações mudam por crise ou por estratégia. Mas a transformação mais poderosa ocorre quando as duas forças convergem: quando se enxerga com clareza a necessidade de mudar e existe vontade genuína de fazê-lo antes que seja tarde demais.

Nesse caminho, o papel do C-Level é insubstituível. Não como aquele que tem todas as respostas, mas como aquele que cria as condições para que a organização se adapte, aprenda e avance. Essa é a liderança que o mundo complexo de hoje exige.

 

Por Marcelo Blechman, sócio da Olivia Chile

 
 
 
 
 
 
 

 

 
 

Por Paula De Caro, sócia da Olivia.