
Há alguns anos venho viajando para a Guatemala e sempre me surpreendeu como a cultura está tão presente no dia a dia das pessoas, das empresas e dos lugares.
Recentemente, na minha última visita ao país centro-americano, enquanto tomava café da manhã ao som de uma bela música ambiente, comecei a ouvir palmas. As mesmas palmas que havia escutado no dia anterior. Mas, dessa vez, ao levantar os olhos, encontrei Anabella: uma mulher de um povoado nos arredores da cidade que trabalha ali fazendo tortillas — para quem não conhece, é o acompanhamento que os “chapines”, como os guatemaltecos são carinhosamente chamados, consomem como outras culturas consomem pão.
Ela executava, de forma repetitiva, uma sequência de movimentos, repetidas vezes. E eu não conseguia parar de observá-la nem de ouvir aquele som, porque era música para os meus ouvidos.
Aproximei-me e perguntei se ela havia percebido que estava fazendo música. “Não”, respondeu, com um olhar surpreso pelo fato de alguém se aproximar dela naquele canto do restaurante. Ela ficou intrigada, então esperei que repetisse sua rotina e, naquele exato momento, disse: “Escute. Suas mãos fazem música”. Imediatamente, ela sorriu e acrescentou: “Eu não tinha percebido”.
Anabella faz isso desde criança. “Precisamos aprender a fazer de tudo para sobreviver”, explicou. Essa forma repetitiva de trabalhar — todos os dias, os mesmos movimentos, mais de 300 tortillas — transformou-se em um hábito. Em pequenos comportamentos invisíveis para ela, que ela não pensa nem percebe, mas que geram arte. Geram cultura.
A cultura que não se vê é a que mais pesa
Falamos de cultura organizacional como se fosse algo que se declara, se imprime em uma parede, se coloca em um processo ou em um documento. Mas Anabella me lembrou de algo que muitas organizações ignoram: a cultura real não se anuncia. Ela acontece. É executada por meio de comportamentos que se transformam em hábitos, que alguém iniciou e ensinou a outra pessoa há anos, e que hoje são tão automáticos que já nem são percebidos.
Uma cultura verdadeiramente incorporada é aquela em que as coisas acontecem sem que ninguém precise mandar. Ações que não são discutidas, apenas executadas. E que ultrapassam as paredes da organização porque impactam quem está de passagem — um cliente, alguém como eu, tomando café da manhã em um canto da Guatemala.
O problema é que a maioria das organizações não consegue enxergar os próprios hábitos. Como Anabella antes de eu mostrar isso a ela, fazem música sem perceber. Ou fazem ruído. E também não percebem.
A lacuna entre a cultura declarada e a cultura vivida
Nos processos de transformação que acompanhamos na Olivia, encontramos sempre a mesma lacuna: o que uma organização diz que é e o que seus colaboradores realmente vivenciam todos os dias. Os valores estão nas paredes. O propósito, no site. Mas, quando perguntamos às pessoas como tomam decisões, como tratam suas equipes quando ninguém está olhando, como reagem ao erro, a cultura real aparece. Aquela que ninguém declarou, mas que todos aprenderam.
Essa lacuna ganha relevância especial no contexto atual. A Guatemala não está alheia a esse fenômeno: a expansão regional de empresas locais — que adquirem outras companhias para crescer além de suas fronteiras — está gerando uma onda de processos de integração que coloca à prova exatamente isso: a capacidade de ler, compatibilizar e transmitir culturas organizacionais. Em nível global, o aumento das megaoperações no final de 2025 — aquelas superiores a US$ 5 bilhões — e as projeções para este ano indicam que o valor total das transações continuará elevado, com uma atividade cada vez mais concentrada em operações de grande porte. Por trás de cada uma dessas operações — sejam as grandes fusões globais ou os acordos regionais protagonizados hoje por empresas guatemaltecas — existem equipes que se unem, culturas que colidem e hábitos organizacionais que ninguém mapeou antes da integração.
O que acontece quando duas culturas se fundem sem que nenhuma delas tenha primeiro tomado consciência dos próprios comportamentos? Acontece o mesmo que Anabella não conseguia ouvir antes que alguém lhe mostrasse: que suas mãos faziam música. Só que, nas organizações, às vezes o que se produz não é música. E o custo de não enxergar isso é pago pelas pessoas.
Quem está prestando atenção aos hábitos da sua organização?
Anabella não precisava de um consultor para fazer o seu trabalho. Mas precisou de um olhar externo para descobrir que aquilo que fazia tinha um valor que ela mesma não percebia.
As organizações também costumam não conseguir enxergar a si próprias. Estão imersas demais na própria realidade, ocupadas demais com o sprint, com o resultado trimestral, com a integração pós-fusão, e acabam perdendo de vista o futuro e a possibilidade de questionar se aquilo que as trouxe até aqui — essa cultura — é realmente o que precisam hoje e daqui para frente. E, nesse ritmo acelerado, os comportamentos que constroem — ou destroem — a cultura permanecem invisíveis.
As perguntas que toda organização deveria estar fazendo hoje são desconfortáveis: Que hábitos seus líderes estão gerando sem perceber? O que um novo colaborador aprende nos primeiros noventa dias sobre como as coisas realmente funcionam aqui, além do que está no manual ou do que é dito no onboarding? Que cultura esta organização está exportando quando cresce, quando incorpora outra empresa, quando entra em uma nova geografia?
Porque a cultura não viaja nos PowerPoints de integração. Ela viaja nos comportamentos das pessoas. Em como um líder conduz uma reunião. Em como se trata alguém que comete um erro. Nos pequenos e invisíveis rituais que, como as palmas de Anabella, geram música ou ruído dependendo de como foram aprendidos.
A cultura é transmitida, não instalada Anabella aprendeu a fazer tortillas com alguém que lhe ensinou. E provavelmente ensinará outras pessoas também. Essa é a natureza da cultura: ela se espalha, é herdada, é transmitida na interação cotidiana, inclusive de forma evoluída. Não nos documentos.
As organizações que entrarem em 2026 com culturas conscientes — que saibam quais hábitos estão cultivando, que consigam nomear o que as torna únicas e transmitir isso de forma consistente — serão as que vencerão a guerra por talentos, a integração de equipes geograficamente dispersas e a construção de experiências de cliente com verdadeira coerência.
Porque, no fim, cultura não é o que se declara, é o que se vive, como a música de Anabella. É aquilo que se faz 300 vezes por dia, sem pensar, em cada canto onde a organização opera.
Por Mariana Socorros, sócia da Olivia Espanha.