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Conectar com o propósito para tirar o melhor de nós se transforma em um “dever ser” em tempos de crises. O caso de Ed Bastian, CEO de Delta Airlines, é exemplo de uma liderança guiado por valores, centrado em proteger seus colaboradores, assim como a liquidez da empresa diante da pior recessão da história da aviação.

No dia 02 de mayo de 2016, Ed Bastian assumiu como CEO de Delta Airlines e assumiu a responsabilidade de uma companhia que nove anos atrás conseguiu sair do Capítulo 11 da Lei de Falências dos Estados Unidos apoiada em uma estratégia de expansão internacional através da aquisição de participação acionária de empresas, o projeto de novos destinos e firmas de alianças e acordos de cooperação.

No entanto a pandemia de covid-19, e o consequente golpe às economias globais, novamente demonstrou o quão frágeis podem ser os momentos de calma e o 2020 enfrentou à indústria da aviação a sua pior crise. A fins de março desse ano, Delta perdia 100 milhões de dólares por dia. Nos meses seguintes, a companhia voou aviões com poucos passageiros e a renda do segundo trimestre caíram quase 90% comparado ao ano anterior. A fins do exercício, Delta relatava uma perda total de quase 12,400 milhões de dólares, a pior em 96 anos de história. Longe de desencorajar-se, Bastian baseou sua liderança nas pessoas. Guiado por habilidades como a empatia à atitude de serviço, colocou o foco no bem-estar de seus colaboradores, sem descuidar o negócio, ações que vinham caracterizando seu modo de liderança há vários anos.

Depois de que a companhia aérea se declarou em falência em 2005, o executivo defendeu um plano para recompensar aos empregados, cujo salário havia sido reduzido, com uma participação anual de 15% dos lucros da empresa. Em fevereiro de 2020, pouco antes do início da pandemia, Delta pagou a seus 90.000 colaboradores um recorde de 1.600 milhões de dólares e apresentou um avião com os nomes de cada um de seus empregados impressos no anterior da nave junto com a palavra “obrigado”.

Estas são algumas das razões pelas que, segundo o executivo, “quando chegou o momento de pedir-lhes que se sacrificassem, o entenderam”. Com a crise pela covid-19, cerca de 45% da forca laboral da linha aérea se ofereceu voluntariamente para tomar uma licença sem remuneração para ajudar a companhia aérea a preservar a liquidez, enquanto que mais de 15,000 empregados optaram por aposentar-se de forma antecipada. Diferente de seus competidores, Delta não despediu nenhum empregado, destacou um antigo publicado no Financial Times.

Porém, no âmbito desta crise, Bastian deu exemplos da importância que dá ás pessoas e redobrou seus esforços para levar adiante ações que impulsarão a diversidade e cuidado ambiental, social e coorporativo. Neste sentido, anunciou planos para duplicar a participação de colaboradores afro-americanos para 2025 e deixou claro seu compromisso de investir 1,000 milhões de dólares para converter-se na primeira companhia aérea neutra em carbono a nível global.

Empregados, o ativo principal em uma crise

Em julho de 2021, Bastian foi nomeado entre os 10 melhores CEOs nos prêmios Glassdoor Employee’s Choice Awards for the Top CEOs of 2021, que ressalta os líderes que se destacaram por apoiar suas equipes durante os difíceis dias da pandemia. Com um índice de aprovação de 97%, Bastian se situou por volta de 24% acima da média de aprovação dos diretores generais, de acordo com os 1.5 milhões de empregadores examinados no site. "Ao longo da pandemia, Ed se manteve firme em pôr as pessoas como prioridade diante dos benefícios e em garantir que a segurança e o bem-estar estejam como prioridade de todas e cada uma das decisões que sejam tomadas", compartilhou Joanne Smith, vice-presidenta e diretora executiva de pessoal de Delta.

É que assim como destacou o executivo em uma entrevista concedida a The New York Times, em tempos de crise, “a pessoa deve certificar-se de que seus empregados saibam que são o melhor patrimônio que a companhia tem. Quando atravessas tempos difíceis, os empregados podem sentir que são um número, um custo, um meio para o fim. Mas não, eles são o propósito, o mais importante que companhia tem.”

“Falamos tanto de nossos valores que as pessoas sabem o que fazer em tempos de crise. Os valores não são algo que se guarda em uma estante ou um exercício que se realiza uma ou duas vezes ao ano, e sim que se vivem todos os dias. Nossa capacidade de responder tão rápido como fizemos é porque sabemos quem são e os valores nos que acreditamos”, sustentou.

Bastian em uma conversa oferecida na Escola de Negócios Goizueta da universidade Emory, no âmbito do programa Impact.

Para Bastian, durante a crise originada pela pandemia, foi decisivo manter a comunicação e a transparência com seus colaboradores, pondo em primeiro lugar a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas, incluindo a disponibilidade de provas e vacinas contra o covid-19. Porque o número um de Delta, conseguiu fazer uma tarefa nada simples: conectar com o propósito para tirar o melhor de si mesmo e transferir esta cultura para toda a corporação. Purpose first como lema e como modo genuíno de agir em todo momento.

A alienação de propósitos

O que é uma empresa com propósito? O conceito de resultados com propósito reflete uma ideia que pede maior atenção em tempos de incerteza e crise: as organizações não somente devem mirar a rentabilidade e sim que tem que ser responsáveis pelas consequências e o impacto global de suas atividades, envolvendo-se em ações socialmente responsáveis que repercutam de forma positiva no entorno.

“ O movimento que afirma a importância de que as empresas tenham um propósito é uma reação ao desequilíbrio que surge da identificação da razão de ser da empresa com a maximização dos benefícios de seus acionistas. A responsabilidade social empresarial, o modelo de stakeholders e a noção de sustentabilidade formam parte destra tendência para a busca de um novo equilíbrio”, compartilhou Koldo Echebarría, diretor geral do ESADE Business & Law School em um artigo publicado na Harvard Deusto.

Neste sentido, Koldo exemplificou: “Quando Henry Ford aspirava que cada estadunidense tivesse um carro, Ikea apostava em levar o desenho para todos os lares e Zara tinha como meta democratizar a moda, estavam expressando um propósito que vai muito além de uma gama de produtos, um posicionamento diante dos competidores ou um modelo de negócio”.

Segundo o especialista, o propósito implica em uma necessidade social, que pode inclusive não estar ainda expressamente formulada. Mas também, o conceito de propósito tem atrás do desejo de impacto social. “A ideia de propósito chegou para ficar e representa um passo mais na recuperação da empresa como instituição social”, disse Koldo.

Para Franz Heukamp, Diretor Geral de IESE Business School, o propósito de uma empresa deve reunir una série de requisitos:

  • Ser una meta ambiciosa e relevante para o âmbito no que opera a companhia
  • Ser conhecido e compartilhado por todos os stakeholders, especialmente os empregados
  • Refletir-se nos objetivos de todos os membros da organização e recordar-se com frequência
  • Estabelecer indicadores e medir de maneira contínua e obsessiva seu progresso.

É que, como entende Bastian, o papel de um CEO mudou. Hoje, mais que nunca, um diretor executivo deve apoiar e acompanhar seus colaboradores, independente de cuidar dos resultados financeiros. “Minha agenda se baseia em nossa gente, que ocupa uma grande parte de meu tempo. Uma das coisas mais importantes que faço, é passar tempo de qualidade com nossa gente, não somente a nível gerencial e sim com nosso pessoal de primeira linha”, compartilhou diante de um grupo de estudantes do instituto de Tecnologia de Geórgia o CEO de Delta que conecta, principalmente com o propósito.

Conectar o propósito pessoal com o da organização será decisivo se as empresas querem que os empregados entreguem seu compromisso pleno e consigam encontrar a sincronia entre seus talentos, os resultados financeiros e o impacto positivo no planeta.

As empresas que entendam esta hipótese conseguirão atrair, desenvolver e reter o melhor talento nos momentos de crise e nos de crescimento. É uma decisão consciente que os líderes devem assumir e agir e como nos demonstrou Ed Bastian, uma decisão inteligente e rentável.

 

Por Rogelio Salcedo, Sócio Diretor de OLIVIA