Irene Marqués

Coeficiente de adaptabilidade, o coeficiente que está tornando o talento obsoleto

A maioria das organizações não está falhando por falta de talento, está falhando por AQ (Adaptability Quotient ou coeficiente de adaptabilidade) baixo. Têm músculos para operar, mas não para mutar.

Escrito por
Irene Marques

Sócio da Olivia México. Especialista em facilitação e desenho de workshops de inovação, alinhamento, priorização, prototipagem e implementação estratégica como drivers de transformação.

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Há alguns dias fui convidada para falar em uma farmacêutica internacional sobre um tema que soa pouco corporativo e bastante desconfortável: o desconforto como vantagem.

A conversa compartilhei com a mestra Clara Kluk, uma referência em inovação que dedicou décadas a estudar como as organizações enfrentam, ou evitam, a mudança. E o que colocamos sobre a mesa não foi inspiração com frases para o Instagram. Foi uma ideia mais exigente: o conceito de vulnerabilidade como condição estratégica do crescimento.

Durante muitos anos nos venderam uma fórmula para o sucesso empresarial: se você contratar pessoas brilhantes (QI), se operar com disciplina (eficiência), se executar sem distrações (KPIs), você vai ganhar. Hoje essa narrativa se rompe com uma realidade menos glamourosa: você pode ter equipes inteligentes e empresas eficientes… e mesmo assim se tornar irrelevante.

A variável que está decidindo quem sobrevive hoje nos ambientes de negócio é um novo coeficiente: o AQ (Adaptability Quotient ou coeficiente de adaptabilidade). A capacidade real, não apenas no discurso, de se adaptar quando o ambiente muda mais rápido do que suas atividades cotidianas.

E aqui está o que precisa mudar na mentalidade dos empresários — algo que vejo diariamente entre meus clientes: a maioria das organizações não está falhando por falta de talento, está falhando por AQ baixo. Têm músculos para operar, mas não para mutar.

Um exemplo que apresentamos para ilustrar essa ideia é o que aconteceu em Nova York em 1860. Naquele momento, o cavalo era o meio de transporte, e isso gerava um problema importante de resíduos. A cidade estava literalmente se afogando em um problema de dejetos que parecia inevitável. Muito tempo e energia foram investidos em "como limpar melhor". Houve previsões apocalípticas. E então aconteceu o que quase ninguém antecipa quando o coeficiente de adaptabilidade é baixo: o problema deixou de ser o problema. Não porque uma solução tenha sido encontrada, mas porque o sistema mudou: o automóvel substituiu o cavalo.

Esse episódio deveria obrigar qualquer comitê diretivo a ter sempre em mente que você pode se dedicar anos a otimizar a solução do problema errado. E quando finalmente "o resolve", o mundo já se moveu. Isso é coeficiente de adaptabilidade baixo: obcecar-se com eficiência dentro do mesmo modelo, incapaz de imaginar o próximo.

Outra história que argumenta essa necessidade é a da lagosta. Esse animal não para de crescer, mas sua carapaça, sim. Chega um ponto em que o corpo já não cabe. O que ela faz? Se desprende de sua casca. Fica vulnerável. Se esconde. Passa um período frágil. Depois cresce uma nova carapaça maior. E segue.

A lagosta não "gerencia a mudança". Ela a cria. Porque se não o fizer, morre. Nas empresas, a carapaça é mental: "é assim que fazemos aqui", "isso funcionou para nós", "melhor não mexer", "não podemos errar". E essa carapaça se torna uma armadilha — protege, sim… mas permanecer nessa zona de conforto não permite crescer.

Por isso a mudança parece uma ameaça: implica engolir um remédio amargo para as organizações, e esse remédio é que crescer exige aceitar um estado de vulnerabilidade, sem exceção. Não há transformação sem esse período.

O grande equívoco é acreditar que as pessoas "resistem à mudança". Na realidade, as pessoas resistem à incerteza. Não é medo da mudança: é medo de mudar às cegas, sem entender o porquê ou o para quê, sem ter um propósito claro.

Então, se queremos falar a sério de adaptabilidade, é importante parar de romantizar a "cultura organizacional". É preciso fazer as perguntas que incomodam:

  • Sua organização sabe mudar com clareza ou muda movida pela ansiedade?
  • As pessoas entendem o para quê ou apenas recebem instruções?
  • Há permissão real para aprender ou o erro é punido com elegância?
  • A energia de mudança é medida ou apenas se reporta avanço em um dashboard?

Porque elevar o coeficiente de adaptabilidade da sua empresa não é uma frase de liderança. É melhorar um sistema. Se desenha, se treina e se mede.

Na era da IA, a vantagem não será "adotar ferramentas". Isso qualquer um pode comprar. Sua vantagem será adaptar comportamentos, redesenhar formas de trabalhar, quebrar silos, aprender mais rápido do que o concorrente e executar sem drama interno.

Já vi organizações onde cada área vive em seu silo, equipes que sequer entendem o que a do lado faz, e mesmo assim proclamam inovação. Isso não é inovação: é marketing. Com um coeficiente de adaptabilidade baixo, a empresa se torna uma coleção de ilhas eficientes incapazes de se mover como sistema.

A pergunta não é se você vai mudar. Você vai mudar. O mercado te muda. A tecnologia te muda. O cliente te muda. O talento te muda. A pergunta real é: você vai mudar por design ou por colapso? E para poder respondê-la, sua organização precisa fortalecer sua adaptabilidade.

Por Irene Marqués, sócia da Olivia 

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