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No futuro, o valor de qualquer organização se reduzirá a saber somente uma coisa: se a existência da mesma melhora ou não o estado das coisas no mundo.

O movimento net positive pode se transformar no exemplo a seguir, para que as empresas desejem uma transformação sistêmica independentemente dos resultados e os balanços financeiros: no futuro, o valor de nossas organizações se reduzirá em saber se a existência de nossa companhia melhora ou não o estado das coisas no mundo. A relação de forças mudou nos últimos anos através de consumidores munidos de tecnologia, de colaboradores que valorizam o respeito por sua qualidade de vida e a busca do bem-estar; e do meio ambiente, que nos lembra cada dia que destruímos o equilíbrio vital do planeta. Nesta sequência, o meio ambiente é hoje a variável que mais pesa, como já advertiu a organização Mundial da Saúde (OMS) há poucos meses.

Um indicador desta tendência é mostrado pelos mercados: segundo Morningstar, os fundos de inversão focalizados em ativos que priorizam os fatores meio ambientais, sociais e de governo corporativo-conhecido como ESG-superam atualmente os veículos de inversão tradicionais com relação ao rendimento. O dado termina de comprovar o que durante anos se negou: que a integração da sustentabilidade na estratégia e as operações corporativas é boa tanto para os acionistas como para o negócio.

A tendência se reflete nas companhias- entre elas várias das mais valorizadas do mundo- que conseguiram aumentar seu valor devido às estratégias net positive. Um exemplo disso é a Microsoft. Desde que o atual CEO tomasse o comando do leme em 201, marcando o cumprimento de objetivos ESG cada vez mais ambiciosos, o valor de sua cotização cresceu oito vezes. Em 2020, a companhia anunciou seu objetivo de ser negativa em emissões de carbono no ano de 2030, compensando suas emissões desde o ano de sua fundação.

Os acionistas britânicos de Unilever obtiveram um rendimento ao redor de 300% entre 2009 e 2019.

 

Outro exemplo é Unilever. O grupo britânico já era reconhecido como uma das empresas mais ambiciosas nesta matéria e em 2017 já tinha trabalhado cerca de 7 anos com sua iniciativa Unilever Sustainable Living Plan (USLP). Esta estratégia pretendia duplicar as vendas, ajudar 1 bilhão de pessoas a melhorar sua saúde e bem-estar e reduzir seu impacto ambiental pela metade. A estratégia incluía a aquisição de outras empresas direcionadas para esta missão, enquanto que paralelamente se vendiam negócios que não conseguiam encaixar com ela. Depois de anos de escasso- e inclusive nulo- crescimento, as rendas alcançaram 60 bilhões de dólares. O valor de suas ações começou então a superar o de seus competidores. Nesse momento, Unilever oferecia 19% de rentabilidade sobre o capital investido, criando valor a longo prazo, como resultado de seu modelo de negócio, não como objetivo principal. Alexandre Behring, presidente de Kraft Heinz, rival direto da companhia, encontrou-se com Paul Polman, CEO de Unilever. Intuía que o motivo do encontro era receber uma oferta de uma das empresas em venda; para sua surpresa, não foi assim: Behring lhe ofereceu comprar Unilever em sua totalidade. O valor que oferecia era de 143 bilhões de dólares, uma cifra que representava uma diferença de 18% comparado ao preço do mercado. A oferta representava um incentivo significativo para a conta de resultados, mas a direção da companhia decidiu rejeitar a oferta e não comprometer seu objetivo final: a postura despertou o apoio público de sindicatos e ONG´s da mesma forma, que pressionaram a opinião pública, mas também de forma menos visível, 3G-Kraft acabou perdendo o apoio público para avançar para uma OPA, com o que deram para trás. O resultado destas ações pode medir-se em números: só a filial India da Unilever vale hoje mais que todo o grupo Kraft-Heinz; entre 2009 e 2019, os acionistas britânicos obtiveram um rendimento próximo ao 300%.

São estes dados que demonstram que net positive é um caminho possível para nossas organizações. Os exemplos destacam aquelas empresas que agem dentro dos limites planetários e que se encarregam de seu impacto, incorporando-o à conta de resultados e prestando contas tanto para seus acionistas como para seus colaboradores. Sem saber, estão dentro de um universo de oportunidades futuras; aquelas que, no mercado, terminarão buscando os consumidores. Para consegui-lo é essencial que a empresa esteja liderada por pessoas com uma mentalidade alinhada com o objetivo de trabalhar para o bem-estar de seus respectivos stakeholders.

 


Por Juan Parodi, Sócio e Diretor Global de Sustentabilidade e Impacto de OLIVIA.

Reportagem original  aquí.