Irene Marques

Os mitos e verdades da inovação nas empresas

A forma mais poderosa de potencializar a inovação é criar um clima organizacional em que as pessoas se sintam à vontade para ousar.

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Irene Marques
Irene Marques

Sócio da Olivia México. Especialista em facilitação e desenho de workshops de inovação, alinhamento, priorização, prototipagem e implementação estratégica como drivers de transformação.

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Confundimos criatividade com inovação, pensamos que inovar é ter muitas ideias e acreditamos que não somos criativos. Esses mal-entendidos estão custando caro às organizações.

Todo 21 de abril, a ONU celebra o Dia Internacional da Criatividade e da Inovação. Uma data que, para a maioria das empresas, passa completamente despercebida. E isso, por si só, já diz muito.

Quando pergunto em uma universidade quem se considera criativo, quatro ou cinco pessoas levantam a mão em uma sala inteira. O mesmo acontece nas empresas: a maioria dos colaboradores assume que inovação é território exclusivo de um departamento especializado, das áreas de tecnologia ou, no melhor dos casos, de quem “nasceu com esse dom”. Essa crença, enraizada e disseminada, é um dos freios mais caros que as organizações enfrentam hoje.

Como consultora especializada em mudança organizacional, acompanhei empresas de setores tão diversos quanto varejo, saúde, manufatura e serviços profissionais. E em todas encontro os mesmos padrões: mitos que se repetem, são tratados como verdades e silenciosamente sabotam qualquer tentativa real de transformação.

Mito 1: Criatividade e inovação são a mesma coisa

Essa confusão é a mais frequente e, talvez, a mais prejudicial. Criatividade é o ato de gerar novas ideias: é imaginação, divergência, exploração. Já a inovação acontece quando essa ideia é implementada com sucesso e gera valor mensurável para o mercado ou para a organização.

Leonardo da Vinci é um dos exemplos mais eloquentes: foi um gênio criativo incontestável, mas grande parte de suas invenções permaneceu apenas em esboços e poucas se tornaram realidade. Criatividade sem metodologia, sem investimento e sem implementação não se transforma em inovação. A inovação exige estratégia, KPIs claros, clareza sobre retorno de investimento e gestão de risco.

Mito 2: Eu não sou criativo

Todos somos criativos. Criatividade não é uma característica fixa que se tem ou não se tem: ela é educada, exercitada e desenvolvida. O sistema educacional, um dos setores que menos evoluiu nos últimos 50 anos, nos ensinou que, ou você desenhava bem, ou não era criativo. Essa falsa equação nos acompanha na vida adulta e profissional.

A realidade é que aplicamos criatividade o tempo todo, inclusive nas decisões mais cotidianas. Quanto mais se trabalha o músculo criativo, mais ideias são geradas. A diferença entre pessoas mais ou menos criativas não é de natureza, mas de prática.

Mito 3: Criatividade é coisa de designers e publicitários

A criatividade não pertence a uma indústria nem a uma função específica. Ela pode — e deve — ser aplicada a qualquer decisão: desde como estruturar um processo de manufatura até como desenhar uma reunião de equipe mais eficiente. O erro está em associar criatividade apenas ao visual ou artístico, quando, na verdade, ela é uma forma de pensar.

As organizações que contratam talentos criativos e depois os encaixam em processos rígidos, sem margem para exploração ou tolerância ao erro, estão anulando exatamente aquilo que buscavam. A criatividade precisa de espaço para respirar.

Mito 4: Com um brainstorming, já inovamos

Quantas vezes ouvimos: “Agora sim vamos inovar, vamos fazer um brainstorming!” A equipe se reúne, alguém cola post-its na parede e, uma semana depois, nenhuma ideia foi avaliada, nenhuma foi implementada e o projeto foi esquecido.

O processo criativo possui uma metodologia precisa. O post-it não é um acidente: ao escrever uma ideia, o movimento físico para baixo ativa o foco e reduz o ruído mental. O marcador grosso obriga a expressar apenas uma ideia por nota, porque o segredo está em mover, combinar e priorizar. Sem um facilitador que conduza o processo — da divergência até a convergência e avaliação — o resultado é frustração coletiva e uma árvore derrubada em vão.

Mito 5: Estruturas e orçamentos protegem a inovação

A realidade é o oposto: estruturas rígidas, política interna e orçamentos definidos previamente matam a inovação. Quando o orçamento determina a ideia — e não o contrário — o pensamento criativo fica preso antes mesmo de nascer. A forma mais poderosa de impulsionar a inovação é criar um clima organizacional em que as pessoas se sintam seguras para tentar: onde existam espaços reais de escuta, círculos de confiança e tolerância ao erro. Um colaborador que tenta fazer algo diferente e recebe como resposta “faça como sempre foi feito” dificilmente tentará novamente.

O verdadeiro papel da liderança na inovação

Conhecer esses mitos não é suficiente. O verdadeiro chamado é para as lideranças: como vocês estão criando o ambiente que permite que as pessoas usem seu mindset criativo e inovador? Porque, se você tem talentos brilhantes, mas os mantém dentro de uma carapaça, não espere resultados diferentes.

Adaptabilidade e flexibilidade — o coeficiente que determina quem sobrevive em um ambiente em constante mudança — são construídas de cima para baixo. Um líder que acredita em sua equipe, que abre espaço para experimentar e aceita que a primeira tentativa talvez não seja perfeita está construindo uma cultura inovadora. Um líder que exige a resposta correta logo de início está destruindo essa cultura.

Se empresas que continuam fazendo as coisas da mesma forma têm poucas chances de permanecer relevantes em um mundo em constante transformação, então todas as empresas precisam inovar. Mas o verdadeiro desafio é entender se os líderes estão dispostos a criar as condições para que isso aconteça.

Por Irene Marqués, sócia da Olivia México.

 

 

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